Novas evidências científicas reforçam os benefícios e impulsionam o debate sobre inclusão do tratamento na rede pública de saúde

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Os avanços da imunoterapia têm revolucionado o combate ao câncer e redefinido as perspectivas de sobrevida para pacientes com diferentes tipos de tumores. Segundo a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), essa abordagem se consolidou, ao longo da última década, como um dos pilares terapêuticos do tratamento oncológico, ao lado da cirurgia, da radioterapia, da quimioterapia e das terapias-alvo.
“Além de taxas de resposta variando de 10% a mais de 50% em diferentes cenários, a possibilidade de que os tratamentos possam proporcionar respostas duradouras e benefício em longo prazo constitui, atualmente, uma realidade cada vez mais frequente”, destaca a SBOC na última Atualização das Diretrizes Brasileiras de Manejo de Toxicidades Imunomediadas Associados ao Uso de Bloqueadores de Correceptores Imunes.
De acordo com a instituição, a imunoterapia no tratamento das células do câncer já é utilizada em pacientes com melanoma e outros tumores cutâneos, assim como em casos selecionados de câncer de pulmão, bexiga, rim, mama, cabeça e pescoço, esôfago e de neoplasias hematológicas
Além do aumento no número de indicações, o uso clínico dos chamados anticorpos monoclonais também deixou de se restringir a pacientes em estágio avançado ou metastático e passaram a ser indicadas como tratamentos adjuvantes, com o objetivo de evitar a recidiva e aumentar as chances de controle da doença.
Entre as tecnologias inovadoras utilizadas na imunoterapia, a Rede D’Or destaca o uso das células CAR-T. Essa técnica utiliza as próprias células de defesa do organismo, conhecidas como linfócitos T, que são coletadas do paciente, modificadas em laboratório para reconhecer e atacar as células neoplásicas e, em seguida, reintroduzidas no corpo.
Segundo a rede hospitalar, as células CAR-T têm apresentado resultados expressivos no tratamento de alguns tipos de leucemia e linfoma, abrindo caminho para novas possibilidades terapêuticas. Esse tipo de inovação traduz o que a oncologia abrange hoje: pesquisas que buscam aprimorar a resposta imunológica do paciente e tornar o tratamento mais personalizado.
Um exemplo disso é um estudo recente, apresentado durante o último Congresso Europeu de Oncologia Clínica (ESMO 2025), que trouxe novas perspectivas para o uso dessa terapia celular em tumores sólidos. A pesquisa, conduzida por um grupo de cientistas da Coreia do Sul, avaliou a aplicação da técnica em pessoas com glioblastoma recorrente, um tipo agressivo de câncer cerebral.
Os participantes receberam injeções de células CAR-T diretamente no tumor e, de acordo com os resultados, 70% tiveram estabilização da doença e três apresentaram redução expressiva do tumor, com resposta duradoura.
O Brasil também tem avançado nessa frente. Em 2024, o Ministério da Saúde firmou um convênio com a Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto (SP) para desenvolver projetos com células CAR-T voltados ao tratamento do câncer. Com investimento de R$ 100 milhões e prazo de execução de quase três anos, a iniciativa busca adaptar a tecnologia à realidade nacional e ampliar o acesso a terapias avançadas na rede pública.
Estudo mostra avanços no tratamento do câncer de mama
Para as pessoas que receberam o diagnóstico de câncer de mama, a imunoterapia também tem se mostrado uma nova esperança. Um dos estudos mais importantes nessa área é o KEYNOTE-522, que avaliou o uso do medicamento pembrolizumabe, um anticorpo que estimula o sistema imunológico, em combinação com a quimioterapia tradicional.
A pesquisa envolveu mais de mil pacientes com câncer de mama triplo-negativo (CMTN) em estágio inicial. Os resultados, apresentados durante o ESMO 2024, em Barcelona, mostraram que a adição do pembrolizumabe ao tratamento padrão aumentou as taxas de sobrevida dos pacientes.
Conforme explica a avaliação científica compartilhada pela SBOC, após um acompanhamento médio de pouco mais de seis anos, a taxa de sobrevida global foi 4,9 pontos percentuais maior entre as pacientes que receberam a imunoterapia, com 86,6% delas vivas após cinco anos de tratamento.
A atualização também mostrou uma melhora na sobrevida livre de eventos, com uma redução relativa de 35% no risco de progressão de doença, recorrência local ou à distância, risco de desenvolver um segundo tumor primário ou morte por qualquer causa no grupo de quimioterapia com pembrolizumabe, quando comparado ao grupo placebo.
“Os dados são particularmente relevantes, visto que o CMTN é um subtipo associado a um prognóstico ruim e poucas opções de tratamento. A integração da imunoterapia em estágios mais precoces do tratamento tem o potencial de transformar o manejo dessas pacientes”, disse a médica do Instituto Europeu de Oncologia, em Milão, Itália, Carmen Criscitiello, ao comentar os dados apresentados no ESMO 2024.
Imunoterapia avança pode ser introduzida ao SUS
A ampliação do acesso à imunoterapia também é pauta no Congresso Nacional. Em agosto, a Comissão de Assuntos Sociais (CAS) aprovou o projeto de lei que inclui o uso da técnica no tratamento do câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta, de autoria do deputado Bibo Nunes (PL-RS), já passou pela Câmara dos Deputados e agora depende da votação no Plenário do Senado.
A relatora do texto, senadora Dra. Eudócia (PL-AL), destacou que a inclusão desse tipo de tratamento na rede pública seria um passo decisivo para democratizar o acesso a terapias mais modernas e reduzir a necessidade de ações judiciais movidas por pacientes que buscam o direito de receber o procedimento.
“A imunoterapia, ela veio como divisor de águas no tratamento oncológico. Se nós incorporarmos a imunoterapia no nosso SUS, indicado pelos especialistas, porque depende de cada paciente, então, isso vai fazer com que diminua a judicialização”, afirma a senadora.
O texto aprovado estabelece que os protocolos clínicos e diretrizes do SUS deverão incluir a imunoterapia sempre que ela se mostrar mais eficiente ou segura que as opções tradicionais.
A Dra. Eudócia lembrou ainda que a técnica já é adotada de forma ampla em países como Estados Unidos, Reino Unido, Japão, China e Canadá, e que, embora o Brasil já utilize o método em alguns tipos de câncer, o acesso ainda é restrito devido à ausência de normas.
“Não é razoável imaginar que um paciente com indicação médica para imunoterapia precise esperar 180 dias ou mais por um processo administrativo de incorporação. A ciência já comprovou a eficácia e a segurança dessas terapias”, completou a parlamentar.
Caso seja aprovada, a proposta deve representar um marco no tratamento oncológico brasileiro, ampliando o acesso a terapias inovadoras e aproximando a rede pública dos avanços que já beneficiam pacientes em sistemas de saúde privados e internacionais.
